Por Sandra Leal, diretora de Qualidade, Ambiente, Segurança e Saúde no Trabalho da Helexia Portugal
O Dia Mundial da Segurança e Saúde no Trabalho, promovido pela Organização Internacional do Trabalho, é hoje mais do que uma data simbólica: é um momento de reflexão sobre os riscos emergentes que moldam o futuro do trabalho. Em 2026, o foco no bem-estar psicossocial vem reforçar uma realidade que as empresas já não podem ignorar: a segurança deixou de ser apenas física, tornando-se também emocional, mental e organizacional.
Durante décadas, a segurança no trabalho esteve associada sobretudo à prevenção de acidentes visíveis. No entanto, os dados mais recentes mostram uma mudança significativa. Segundo a OIT, quase 3 milhões de pessoas morrem a cada ano devido a acidentes e doenças relacionados com o trabalho. Já a Organização Mundial da Saúde estima que, a nível global, a depressão e a ansiedade levam à perda de cerca de 12 mil milhões de dias de trabalho por ano, representando um custo de aproximadamente 1 bilião de dólares anuais em perda de produtividade. Este cenário evidencia uma transformação estrutural: os riscos psicossociais são hoje tão críticos quanto os riscos físicos.
O ambiente psicossocial, que inclui fatores como carga de trabalho, pressão temporal, clareza de funções, qualidade da liderança e cultura organizacional, influencia directamente a capacidade de concentração, a tomada de decisão e a percepção do risco. Num contexto operacional exigente, estas variáveis podem ser determinantes entre um ambiente seguro e um potencial incidente.
E esta realidade ganha especial relevância em sectores como o da energia. Num sector marcado por operações técnicas complexas, trabalho em campo, exposição a riscos físicos e uma crescente pressão para acelerar a transição energética, o factor humano assume um papel ainda mais crítico. A expansão das energias renováveis, a descentralização da produção e a digitalização das infraestruturas trouxeram novos desafios, não apenas tecnológicos, mas também organizacionais. Neste contexto, a segurança neste e muitos outros sectores exige uma abordagem integrada. Não basta garantir equipamentos adequados, procedimentos rigorosos ou conformidade normativa. É essencial assegurar que as pessoas estão em condições, físicas e psicológicas, para desempenhar as suas funções com segurança. Promover ambientes psicossocialmente saudáveis não é apenas uma questão de bem-estar, é uma estratégia de prevenção.
Organizações que investem em cultura de segurança, liderança consciente e apoio psicológico conseguem não só reduzir acidentes e absentismo, mas também aumentar o engagement, a retenção de talento e a eficiência operacional. Um estudo da Universidade de Oxford mostra que trabalhadores mais felizes podem ser cerca de 12% a 13% mais produtivos.
No entanto, este impacto só se materializa quando existe uma abordagem estruturada e contínua. Isso implica a integração de práticas como a avaliação regular dos riscos psicossociais, a capacitação das lideranças para identificar precocemente sinais de stress, a promoção efectiva do equilíbrio entre vida profissional e pessoal e a criação de canais seguros de comunicação e apoio. E mais do que um conjunto de medidas isoladas, trata-se de construir um sistema consistente de prevenção, sustentado por uma mudança cultural profunda. Uma mudança que exige, sobretudo, uma nova forma de olhar para a segurança. Reconhecer que o erro humano raramente é um acontecimento isolado e resulta, muitas vezes, de contextos organizacionais exigentes, pressões acumuladas ou factores emocionais adversos, é essencial para evoluir de uma cultura reactiva para uma cultura verdadeiramente preventiva.
Porque, no final, a segurança não se mede apenas em indicadores ou procedimentos. Mede-se na forma como as pessoas trabalham, decidem, comunicam e se sentem. E essa é, hoje, uma das responsabilidades mais críticas de qualquer empresa.
Artigo publicado em hrportugal.sapo.pt
