Durante décadas, a energia foi tratada nas empresas como um custo inevitável: uma linha no final da conta de resultados que se geria com eficiência e bom senso, mas raramente com visão estratégica. O Dia Nacional da Energia é uma boa ocasião para reconhecer que esse tempo acabou.
Portugal tem hoje 63% da sua eletricidade produzida a partir de fontes renováveis. É um número que orgulha, mas que ao mesmo tempo expõe uma contradição. Somos um país com sol, vento e água em abundância, mas com uma dependência energética externa que ainda ronda os 67%. Como é possível? A resposta está na diferença entre produzir energia e ser capaz de a gerir, armazenar e consumir de forma inteligente.
O mercado grossista de eletricidade na Europa continua estruturalmente volátil. As empresas que não construíram mecanismos de proteção como autoconsumo, contratos de longo prazo ou armazenamento estão hoje expostas a oscilações que afetam diretamente as suas margens. A energia tornou-se, portanto, uma variável de competitividade, não apenas de sustentabilidade.
O que está a mudar agora é a velocidade e a escala dessa transformação. Em toda a Europa do Sul os reguladores estão a acelerar os enquadramentos para sistemas de armazenamento de baterias (BESS) e para a hibridização de projetos solares. O armazenamento deixou de ser uma tecnologia promissora para se tornar infraestrutura operacional. Não é uma questão de inovação; é uma questão de preparação.
Para os decisores industriais e de retalho, o desafio é concreto: como garantir previsibilidade de custos energéticos num mercado onde essa previsibilidade é cada vez mais escassa? A resposta passa por três movimentos convergentes.
O primeiro é o autoconsumo. A geração local através de solar fotovoltaico, em especial já não é uma opção de imagem verde. É uma decisão financeira com retorno mensurável e cada vez mais competitivo. O segundo é a gestão ativa. Ter energia produzida não é suficiente; é necessário saber quando consumi-la, quando armazená-la e quando injetá-la na rede. O terceiro é a visibilidade de dados. As empresas com múltiplas instalações precisam de orquestração energética integrada e em tempo real, não de relatórios mensais.
Esta não é uma agenda exclusiva das grandes empresas. As PME portuguesas com consumos industriais significativos têm hoje acesso a soluções que, há cinco anos, eram economicamente inviáveis para a sua escala. O mercado democratizou-se e quem ainda não atuou já está a perder vantagem competitiva face a concorrentes europeus que já o fizeram.
Há, por isso, uma janela de oportunidade real para Portugal. A nossa matriz renovável, os incentivos comunitários disponíveis e a maturidade crescente do setor de serviços energéticos criam condições para que empresas nacionais liderem pela eficiência e resiliência energética. Mas a janela não fica aberta indefinidamente.
Neste Dia Nacional da Energia, a mensagem que importa transmitir não é de alarmismo, é de decisão estratégica e execução. A transição energética europeia entrou numa fase nova: já não se trata apenas de descarbonizar. Trata-se de competir. E as empresas que entenderem esta mudança primeiro serão as que estarão melhor posicionadas para o que aí vem.
