Durante décadas, Portugal procurou identificar a verdadeira vantagem competitiva. Falamos de talento, localização geoestratégica, estabilidade institucional e capacidade de inovação. Todos estes fatores são relevantes. Mas há hoje uma variável que ganhou centralidade económica e estratégica: a energia.
Não se trata apenas de uma questão ambiental. A energia tornou-se um fator determinante na localização do investimento, nos custos de produção, na resiliência das operações e, em última análise, na capacidade de competir.
O diagnóstico europeu é claro.
O relatório de Mario Draghi sobre o futuro da competitividade europeia concluiu que as empresas da União Europeia continuam a enfrentar preços de eletricidade duas a três vezes superiores aos dos Estados Unidos e preços de gás quatro a cinco vezes mais elevados. Num contexto de crescente concorrência internacional, esta diferença não é apenas uma desvantagem energética: é uma desvantagem industrial.
É precisamente neste contexto que Portugal pode assumir uma posição diferenciadora.
Em 2024, as fontes renováveis asseguraram 71% do consumo de eletricidade em Portugal, beneficiando de uma combinação particularmente favorável de recursos hídricos, eólicos e solares. No contexto da Iberian Industry and Energy Transition Initiative, a McKinsey estimou que a energia limpa produzida na Península Ibérica pode ser entre 20% e 30% mais competitiva do que a média europeia. Também no investimento existem sinais positivos.
Uma análise da OCDE concluiu que Portugal foi uma das únicas duas economias avançadas, num conjunto de 34 países, em que o investimento líquido ultrapassou a tendência anterior à crise financeira. Este dado não significa que a energia seja a única explicação para o desempenho português. Confirma, no entanto, que o país se encontra num momento particularmente relevante para consolidar a sua capacidade de atração de investimento produtivo. Mas é importante reconhecer que uma elevada disponibilidade de energia renovável não se traduz automaticamente numa fatura mais competitiva para todas as empresas.
A competitividade energética não se mede apenas pela percentagem de renováveis no sistema elétrico. Mede-se pelo custo efetivo da energia para as empresas, pela previsibilidade desse custo e pela capacidade de o integrar nas decisões de investimento, produção e operação.
A capacidade das redes, os processos de licenciamento, as tarifas, a fiscalidade, as condições de contratação, o armazenamento e a correspondência entre os momentos de produção e de consumo determinam quanto dessa vantagem chega efetivamente às empresas.
Uma vantagem energética só se transforma numa vantagem competitiva quando chega ao contador, à operação e à demonstração de resultados. Os investidores internacionais compreendem cada vez melhor esta realidade.
Nos projetos industriais mais intensivos em energia, a estratégia energética começa a ser definida antes do início da operação. Quanto será consumido? Que parte poderá ser evitada através da eficiência? Quanto poderá ser produzido localmente? Que consumos podem ser deslocados? Qual o papel do armazenamento? Como reduzir a exposição à volatilidade durante a vida útil do investimento?
A energia deixa, assim, de ser uma despesa aceite no final do mês e passa a ser uma variável considerada desde a conceção do projeto.
Em contrapartida, uma parte relevante do tecido empresarial continua a gerir a energia sobretudo através da renegociação periódica do contrato de fornecimento. Essa negociação é necessária, mas não constitui, por si só, uma estratégia energética.
Uma verdadeira estratégia começa por compreender como, quando e onde a energia é consumida. Depois, combina eficiência energética, produção local, armazenamento, flexibilidade, eletrificação e contratação de longo prazo de acordo com o perfil operacional e os objetivos financeiros de cada empresa.
O valor não está apenas em instalar uma determinada tecnologia. Está na forma como as diferentes soluções trabalham em conjunto para reduzir custos, emissões e exposição ao mercado, sem comprometer a continuidade da operação.
É também essa a realidade que observamos no terreno: os projetos que criam mais valor são aqueles que partem de uma visão integrada. O autoconsumo solar, a eficiência energética, o armazenamento e a gestão ativa da energia não devem ser tratados como investimentos independentes, mas como componentes de uma mesma arquitetura energética.
O desafio, portanto, já não é essencialmente tecnológico. As soluções existem, os resultados podem ser medidos e os modelos de financiamento permitem, em muitos casos, avançar sem desviar capital do core business.
O principal desafio é de gestão e de capacidade de execução. Portugal tem, naturalmente, trabalho por fazer. Precisa de reforçar as redes, acelerar o licenciamento, desenvolver capacidade de armazenamento e garantir estabilidade regulatória.
Mas as empresas não têm de esperar que todos esses desafios estejam resolvidos para começar a gerir melhor a energia que consomem. As vantagens competitivas não são permanentes. À medida que outros países aceleram o investimento em renováveis, redes e armazenamento, a diferença tenderá a diminuir.
Portugal tem recursos. Tem localização. Tem experiência acumulada em renováveis. Tem uma janela de oportunidade. Mas, como qualquer vantagem competitiva, o tempo conta. A questão já não é saber se o país possui recursos energéticos capazes de apoiar a sua competitividade. É saber se conseguiremos transformá-los em custos mais baixos, maior resiliência, novo investimento e crescimento económico.
Os países distinguem-se pelos recursos de que dispõem. As empresas e as economias distinguem-se pela capacidade de os transformar em valor antes dos outros.
Artigo publicado em jornalptgreen.pt
