Durante grande parte da última década, a transição energética europeia foi discutida sobretudo em termos de capacidade instalada: quantos gigawatts de solar e eólico conseguimos colocar no sistema, quão rapidamente conseguimos substituir fontes fósseis e quanto investimento será necessário para eletrificar a economia. Essa continua a ser uma parte fundamental da equação. Mas já não é suficiente. Nas empresas a transição energética foi associada sobretudo a duas prioridades: consumir menos energia e produzir mais energia renovável. Essas prioridades continuam válidas. Mas já não chegam.
À medida que aumenta a presença de fontes renováveis variáveis, o desafio começa progressivamente a deslocar-se da quantidade de eletricidade que conseguimos produzir para a nossa capacidade de garantir que essa eletricidade está disponível quando e onde é necessária. É aqui que entra a flexibilidade. E os sinais estão a tornar-se difíceis de ignorar.
O preço da energia depende cada vez mais de quando se consome
Num sistema com elevada produção solar, é cada vez mais comum existir muita eletricidade disponível durante determinadas horas do dia e muito menos noutras. Isto cria uma maior diferença de valor entre horas. Para as empresas, significa que já não basta saber quanto consomem. É cada vez mais importante perceber quando consomem. Uma fábrica capaz de deslocar determinados processos para períodos de maior disponibilidade de energia pode reduzir custos. Um centro comercial pode utilizar uma bateria para evitar picos de consumo. Uma empresa com autoconsumo solar pode armazenar excedentes em vez de os entregar à rede com menor valorização. A curva de consumo passa, por isso, a ser uma variável de gestão.
Autoconsumo solar: produzir já não é suficiente
O autoconsumo continua a ser uma das ferramentas mais eficazes para reduzir a exposição aos preços da eletricidade. Mas há uma diferença crescente entre produzir energia e maximizar o valor dessa produção. Se uma instalação produzir muito ao meio-dia, mas o maior consumo ocorrer ao final da tarde, parte do potencial económico pode perder-se. É aqui que armazenamento, gestão da procura e sistemas de gestão de energia passam a complementar o solar. O objetivo deixa de ser simplesmente maximizar a produção. Passa a ser maximizar o autoconsumo, a poupança e o valor de cada kWh produzido.
As baterias passam de acessório a ativo estratégico
Esta evolução já é visível em vários mercados europeus. Espanha está a desenvolver mecanismos de resposta ativa da procura. Itália está a contratar capacidade de armazenamento a grande escala. Portugal está a estudar formalmente as necessidades de flexibilidade do sistema. França enfrenta cada vez mais períodos de excesso de produção e preços negativos. Polónia e Roménia estão a reforçar a importância do armazenamento e da flexibilidade para suportar sistemas elétricos em profunda transformação. Para as empresas, isto significa que uma bateria deixa de ter apenas uma função: armazenar energia solar. Pode também permitir:
- reduzir picos de potência;
- deslocar consumo para horas mais favoráveis;
- aumentar a utilização da produção solar;
- reduzir exposição a períodos de preços elevados;
- aumentar a resiliência operacional;
- e, em alguns mercados, prestar serviços à rede.
Ou seja, a flexibilidade começa a ter valor económico próprio.
De consumidor para gestor de energia
Esta é provavelmente a mudança mais relevante. Durante décadas, as empresas foram essencialmente consumidoras de eletricidade. Agora podem produzir, armazenar e controlar energia. No futuro, uma instalação industrial poderá decidir automaticamente se, naquele momento, é mais vantajoso consumir energia solar, armazená-la, carregar veículos elétricos, reduzir determinados consumos ou utilizar energia armazenada. Um Energy Management System passa a coordenar estas decisões. A empresa deixa de ser apenas consumidora. Passa a ser gestora ativa do seu sistema energético.
A flexibilidade torna-se uma questão de competitividade
Para uma empresa, este tema não é apenas sobre apoiar a estabilidade da rede elétrica. É sobretudo sobre competitividade. Empresas com maior flexibilidade energética poderão estar melhor preparadas para: • reduzir custos, • aproveitar períodos de energia mais barata, • aumentar o retorno do autoconsumo, • gerir picos, • reduzir exposição à volatilidade e • adaptar-se a mercados elétricos cada vez mais dinâmicos.
Isto muda também a forma como devemos pensar a transição energética nas empresas.Autoconsumo, baterias, eficiência energética, mobilidade elétrica e gestão de energia não devem ser analisados como projetos separados. Devem funcionar como partes de um mesmo sistema.
Porque a próxima fase da transição energética não será apenas sobre instalar mais capacidade renovável.Será sobre orquestrar melhor a energia que já conseguimos produzir. E para as empresas, isso pode significar algo muito concreto: menos exposição ao mercado, maior controlo sobre os custos e maior competitividade.
