Durante anos, a transição energética esteve centrada sobretudo numa questão: com que rapidez podem as empresas substituir a eletricidade de origem fóssil por energia renovável?
Essa questão continua a ser importante, mas já não é suficiente.
À medida que a energia solar e eólica ganham peso no mix elétrico, o desafio passa de simplesmente produzir energia renovável para decidir quando a consumir, armazenar ou disponibilizar à rede.
É por isso que a flexibilidade está a tornar-se na próxima grande vantagem energética.
A produção renovável nem sempre coincide com o consumo
A produção solar e eólica depende das condições meteorológicas. Já a procura de eletricidade segue padrões diferentes.
Isto cria períodos em que a energia renovável é abundante e os preços são muito baixos, por vezes até negativos, e outros em que a produção diminui, a procura aumenta e os preços sobem.
O problema não é existir demasiada energia renovável. É haver ainda pouca capacidade para deslocar energia no tempo.
O armazenamento, a resposta da procura e a gestão inteligente de energia ajudam a ultrapassar este desfasamento, garantindo que a eletricidade renovável é utilizada quando gera mais valor.
O que significa flexibilidade para as empresas
A flexibilidade energética é a capacidade de ajustar a produção ou o consumo em função dos preços da energia, das condições da rede e das necessidades operacionais.
Para uma empresa, isto pode significar:
- armazenar o excedente de produção solar para utilização posterior;
- deslocar consumos flexíveis para períodos de menor preço;
- reduzir picos de potência;
- coordenar o carregamento de veículos elétricos com a produção solar;
- participar em mercados de balanço ou em programas de resposta da procura.
Um sistema fotovoltaico produz energia. Uma bateria desloca essa energia no tempo. Um sistema de gestão de energia decide quando é mais vantajoso consumir, armazenar ou exportar.
Em conjunto, estas soluções transformam uma instalação renovável num ativo energético gerido de forma ativa.
Quatro fontes de valor para as empresas
Custos de energia mais baixos e previsíveis
O autoconsumo solar reduz a quantidade de eletricidade comprada à rede. O armazenamento e a gestão da procura aumentam esse valor, permitindo às empresas utilizar uma maior parte da sua própria produção e evitar períodos de consumo mais caros.
O objetivo já não é apenas comprar menos eletricidade, mas comprá-la e consumi-la de forma mais inteligente.
Maior resiliência operacional
À medida que as empresas eletrificam processos industriais, mobilidade, aquecimento e arrefecimento, aumenta também a sua dependência da eletricidade.
As baterias e os sistemas de controlo inteligente podem ajudar a gerir picos de consumo, apoiar operações críticas e reduzir a exposição a limitações da rede ou à volatilidade do mercado.
Melhor utilização da capacidade da rede
As redes elétricas necessitam de investimento significativo, mas a sua expansão é frequentemente lenta.
A flexibilidade pode complementar esse investimento, deslocando consumos para fora dos períodos de maior congestionamento, armazenando produção local e utilizando melhor a capacidade de ligação existente.
Para algumas empresas, isto pode também reduzir ou adiar a necessidade de reforços dispendiosos da ligação à rede.
Novas oportunidades de receita
Os ativos flexíveis podem gerar valor para além da poupança energética.
Dependendo das regras de cada mercado, as baterias e os consumos controláveis podem participar em serviços de balanço, arbitragem energética e programas de resposta da procura.
O mesmo ativo pode, assim, gerar valor através de:
- redução das compras de energia;
- diminuição dos picos de potência;
- maior aproveitamento da produção solar;
- arbitragem entre períodos de preço;
- prestação de serviços à rede.
Esta combinação de várias fontes de valor reforça o business case da flexibilidade.
Flexibilidade é mais do que baterias
As baterias são fundamentais, mas a flexibilidade também existe dentro das próprias operações das empresas.
Sistemas de aquecimento e arrefecimento, refrigeração, bombagem, ar comprimido, infraestruturas de carregamento e alguns processos industriais podem frequentemente ajustar o seu consumo sem afetar a produção.
Isto torna a resposta da procura particularmente relevante. Em muitos casos, as empresas podem explorar flexibilidade através de equipamentos que já possuem, desde que disponham de monitorização, automação e acesso adequado ao mercado.
Flexibilidade não significa necessariamente consumir menos. Significa consumir no momento certo.
De projetos renováveis para estratégias energéticas integradas
A primeira fase da transição energética empresarial baseou-se em projetos isolados: instalações fotovoltaicas, medidas de eficiência ou soluções de carregamento elétrico.
A próxima fase exige integração.
As empresas precisam de ligar produção renovável, armazenamento, eletrificação, consumos flexíveis e gestão digital de energia numa única estratégia.
Isto altera a pergunta central.
Já não é apenas:
Quanta energia renovável conseguimos produzir?
É cada vez mais:
Quanto controlo conseguimos ter sobre quando e como utilizamos a energia?
As energias renováveis continuam a ser a base da transição energética. Mas, num sistema mais eletrificado, descentralizado e volátil, a competitividade dependerá cada vez mais da capacidade de gerir a energia de forma inteligente.
A próxima vantagem energética é a flexibilidade.
