Durante décadas, Portugal viveu condicionado por um desafio estrutural: o acesso à energia. A forte dependência externa de combustíveis fósseis limitou a competitividade da economia, expôs o país a choques geopolíticos e limitou a margem de decisão estratégica. Nos últimos 40 anos, este cenário evoluiu de forma profunda, e hoje os desafios são de outra natureza e exigem um novo superior de maturidade na forma como pensamos, planeamos e excutamos a transição energética.
A primeira fase deste percurso foi marcada pela necessidade: garantir energia num país sem recursos fósseis e elevada dependência externa. A segunda fase coincidiu com o início da descarbonização, quando Portugal apostou de forma decisiva nas energias renováveis, com destaque para a energia eólica. Foi um passo decisivo, ainda que ancorado, em grande medida, na importação de tecnologia e equipamento.
Entrámos, entretanto, numa terceira fase: a industrialização da transição energética. Continuamos a importar grande parte do equipamento, mas o país passou a criar emprego qualificado, a desenvolver competências locais e a consolidar capacidade técnica, de engenharia e operação. A transição deixou de ser apenas um compromisso ambiental para se afirmar como um eixo económico e industrial com impacto real.
Hoje, Portugal dispõe de um ativo raro na Europa: recursos renováveis abundantes e competitivos. No entanto, essa vantagem deve ser lida à luz de uma realidade geográfica e política incontornável. Portugal, tal como Espanha, funciona como uma “ilha energética”, com interligações limitadas ao resto da Europa. Esta condição obriga a uma visão própria sobre segurança de abastecimento, assente em capacidade instalada nacional, redundância do sistema e investimento contínuo em redes e armazenamento.
É neste enquadramento que surge uma questão estratégica central: poderá Portugal tornar-se um exportador líquido de eletricidade renovável para a Europa? O desafio é ambicioso e não se esgota na instalação de nova capacidade de produção. Exige redes mais robustas, maior capacidade de armazenamento centralizado e descentralizado, interligações internacionais eficazes e estabilidade regulatória que permita investimentos de longo prazo. Mais do que um objetivo nacional, trata-se de um teste à coerência da estratégia energética europeia.
Ao mesmo tempo, estamos a entrar numa nova fase: a eletrificação generalizada do consumo energético. Indústria, transportes, edifícios e serviços convergem rapidamente para um modelo cada vez mais elétrico. Esta transformação ocorre numa escala sem precedentes e coloca enorme pressão sobre as infraestruturas existentes. Redes elétricas, sistemas de armazenamento e soluções complementares, como o hidrogénio, particularmente relevante para processos industriais e transportes pesados, tornam-se pilares centrais do sistema energético do futuro.
Mas não basta produzir energia limpa. É essencial consumi-la melhor. A eficiência energética assume agora um papel estrutural: produzir eletricidade renovável para depois a desperdiçar é um contrassenso económico e ambiental. Investir na eficiência dos edifícios, dos processos industriais e na gestão inteligente da energia é tão estratégico quanto instalar novos megawatts de capacidade renovável.
Em última análise, a maturidade da transição energética mede-se pela capacidade de integrar produção, consumo, armazenamento e rede de forma integrada. Portugal já demonstrou que sabe produzir energia limpa. O desafio agora é transformar essa capacidade em valor económico, segurança energética, e contribuição efetiva para a competitividade europeia. Não é apenas uma oportunidade, é uma responsabilidade, transformar energia em valor.
Por: Luis Pinho – Country Director Helexia Portugal
